Reforma tributária para locadoras: as dúvidas que ninguém responde de forma direta
No dia 25 de março de 2026, a Eloca realizou o webinar "Como Organizar o Financeiro em Tempos de Reforma Tributária", apresentado por Diogo Arado, especialista financeiro para locadoras e consultor da W1 Business.
Durante a apresentação, os participantes fizeram perguntas diretas sobre reforma tributária, fluxo de caixa, DRE e indicadores. Reunimos todas as respostas aqui, na íntegra.
Reforma Tributária
"O impacto será brutal como? Ninguém sabe falar qual é esse impacto."
Essa pergunta é muito justa, porque de fato ainda não existe uma definição completa de todas as regras operacionais. Mas, mesmo sem ter 100% de certeza da alíquota final ou da aplicação em todos os casos, já é possível entender onde está o impacto real.
O ponto principal não é só o percentual de imposto. O impacto mais relevante está na mudança da lógica do fluxo financeiro. Com o novo modelo, especialmente com a possibilidade de split payment, o imposto tende a ser recolhido no momento da transação, e não mais depois que o dinheiro entra no caixa.
Isso significa que o empresário pode ter que pagar imposto antes de receber. E isso muda completamente a dinâmica de capital de giro.
Então, mesmo sem saber o número exato, já dá para afirmar com segurança que empresas com margem mais apertada ou com caixa mais pressionado vão sentir esse efeito primeiro.
"Mesmo que aumente, não é só repassar no preço final?"
Essa é uma visão que faz sentido no papel, mas na prática ela não acontece de forma tão simples.
O repasse de preço depende de três fatores: mercado, concorrência e contrato. Em muitos casos, o empresário não consegue ajustar preço na mesma velocidade em que o custo sobe, principalmente quando existem contratos já firmados ou quando o mercado está competitivo.
O que costuma acontecer é um período de transição onde o custo sobe primeiro, a margem reduz e só depois, se houver espaço, o preço é ajustado.
Esse intervalo é exatamente onde muitas empresas perdem resultado sem perceber, porque continuam faturando, mas com margem comprimida.
"Isso não é reforma, é aumento de tributação?"
Para alguns setores, principalmente serviços, existe uma tendência de aumento da carga efetiva, sim. Mas o ponto mais relevante não é classificar como aumento ou reforma.
O que realmente importa é que a forma de apuração e o momento do pagamento mudam. E isso afeta diretamente o caixa.
Mesmo que a carga total não aumentasse, só a mudança de timing já seria suficiente para gerar impacto relevante na operação.
"Como funcionam os créditos de IBS/CBS?"
O novo modelo é baseado em não cumulatividade ampla, o que significa que você pode tomar crédito sobre aquilo que compra.
Mas existe uma diferença importante entre setores. Empresas industriais e comerciais tendem a ter mais crédito, porque compram insumos diretamente ligados à produção ou revenda.
Já na locação, principalmente quando o modelo é mais puro, o volume de créditos pode ser menor. Por isso, a escolha de fornecedores passa a ter um peso muito maior.
Se você compra de um fornecedor que gera crédito, sua carga efetiva diminui. Se não gera, o custo aumenta.
Isso transforma a decisão de compra em uma decisão financeira, e não apenas operacional.
"Locação será mais penalizada do que venda?"
De forma geral, a tendência é que o modelo de locação tenha mais pressão de margem do que o modelo de venda.
Isso acontece porque a venda costuma gerar crédito mais direto e mais claro dentro da cadeia, enquanto a locação depende mais da estrutura do negócio.
Isso não significa que a locação deixa de ser um bom modelo. Significa que ela exige mais controle financeiro e mais precisão na formação de preço.
"Vai continuar existindo recibo de locação?"
A tendência é de padronização via nota fiscal de serviço nacional. O modelo caminha para centralização e simplificação.
Ainda existem pontos operacionais em definição, então durante a transição pode existir algum período híbrido. Mas a direção é clara: substituição do recibo por nota fiscal padronizada.
"Como será a alíquota e o cálculo?"
Hoje ainda trabalhamos com estimativas. O número cheio costuma aparecer na faixa de 25% a 30%, mas isso não é o que a empresa efetivamente paga.
O que importa é a alíquota efetiva, que considera os créditos. E essa alíquota varia de acordo com a estrutura de custo de cada empresa.
Por isso, não existe uma resposta única. Cada empresa precisa simular o seu cenário.
Fluxo de Caixa
"Como separar, na prática, o fluxo operacional e o de investimento?"
Na prática, a separação precisa ser simples e disciplinada.
Tudo que é rotina do negócio entra como operacional: aluguel, manutenção, despesas, impostos.
Tudo que é compra ou venda de ativo entra como investimento.
E tudo que é relação com banco, financiamento ou juros entra como financeiro.
Essa separação não é contábil, é gerencial. E ela é essencial, porque permite entender se a empresa gera caixa ou apenas movimenta dinheiro.
"Pagamento de financiamento entra como operacional?"
Não. Financiamento é fluxo financeiro.
Se você mistura isso com operação, você distorce completamente a leitura do negócio.
O que a operação gera deve ser analisado separadamente. O financiamento é uma forma de sustentar ou acelerar o crescimento, não faz parte da geração.
"Como lidar com o descasamento entre pagar o equipamento e receber a locação?"
Esse é um dos pontos mais críticos da locação.
Você tem um investimento concentrado no início e uma receita diluída ao longo do tempo. Isso exige estrutura.
As três formas principais de lidar com isso são:
- Alinhar o prazo da dívida com o tempo de retorno do ativo
- Estruturar capital de giro suficiente para suportar o início
- Acompanhar a geração de caixa com disciplina
Sem isso, a empresa cresce, mas o caixa não acompanha.
"E o descompasso entre o prazo da dívida e o do contrato?"
Esse é um erro clássico.
Se a dívida vence antes de o ativo gerar caixa suficiente, você cria uma pressão desnecessária.
O ideal é que o financiamento respeite o ciclo do ativo. Caso contrário, a empresa entra em um ciclo de estresse financeiro mesmo tendo um bom produto.
DRE e Indicadores
"A DRE deve separar operação e financeiro?"
Sim, obrigatoriamente.
Se você não separa o resultado operacional do impacto financeiro, você não entende se o negócio é saudável ou se está sendo sustentado por dívida.
A DRE precisa mostrar claramente o que vem da operação e o que vem da estrutura financeira.
"Depreciação é custo ou reinvestimento?"
Depende do ponto de vista.
Contabilmente, é custo. Ela reduz o resultado.
Mas, do ponto de vista de gestão, ela representa a necessidade de reinvestimento. Ignorar isso cria uma falsa sensação de lucro.
"Custo direto é válido fiscalmente?"
Nem sempre da forma como usamos na gestão.
O fiscal segue regras contábeis específicas. Já a visão gerencial precisa ser mais detalhada para apoiar decisão.
São duas leituras diferentes, e as duas são importantes.
Boas Práticas
"Fornecedor impacta crédito tributário?"
Sim, diretamente.
A escolha do fornecedor passa a influenciar a carga efetiva de imposto. Isso faz com que as compras deixem de ser apenas operacionais e passem a ter impacto financeiro relevante.
"Venda de acessórios pode ajudar?"
Sim.
Além de diversificar receita, pode melhorar a estrutura de crédito tributário e ajudar na composição de margem.
Muitas empresas devem ajustar seu modelo considerando isso.
"O que olhar no dia a dia?"
Primeiro, caixa. É o que mantém a empresa funcionando.
Depois, geração de caixa. É o que sustenta o crescimento.
E, por fim, indicadores, que ajudam a antecipar problemas.
Olhar apenas o resultado mensal costuma ser tarde demais.
Assista ao webinar completo
Este conteúdo é baseado no webinar "Como Organizar o Financeiro em Tempos de Reforma Tributária", realizado em 25 de março de 2026 e apresentado por Diogo Arado, especialista financeiro para locadoras e consultor da W1 Business, em parceria com a Eloca.
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